Em textos literários e na linguagem espontânea, o emprego do verbo no singular é recorrente |
RECEBO UM TELEFONEMA de ninguém menos do que o grande Ziraldo. Como faz sempre que conversamos, o Mestre brinca comigo culpando-me de algo (linguístico) de que não tenho culpa. Aliás, muita gente gosta disso (e sem o tom de brincadeira e respeito de Ziraldo).
Uma das últimas culpas que me atribuíram é relativa a uma tola lista de provérbios, "corrigidos" por mim. A bobagem (que nunca escrevi) circula pela internet, normalmente com este título: "Direto do professor Pascoale" (meu nome é Pasquale). E ali se diz, por exemplo, que o certo é "Quem tem boca vaia Roma" (em vez de "vai a Roma"). Jogue isso no lixo, caro leitor, pelo amor de Deus.
Pois bem. Ziraldo me ligou para pedir explicações, apoio, solidariedade etc. Explico: na próxima obra de Ziraldo ("O Capetinha do Espaço", escrita em versos alexandrinos), Mercúrio faz uma "sacanagem" com Plutão ("Mercúrio era um grande...", diz Ziraldo, rindo). Aí entra esta passagem: "E deu uma risada daquelas que arrasa".
Entre as formas "arrasa" e "arrasam" ("uma risada daquelas que arrasa/arrasam"), Ziraldo optou por "arrasa", que rima com "casa", palavra que encerra o verso alexandrino seguinte, dito por Plutão ("Eu não posso levar desaforo pra casa"). Convém lembrar que verso "alexandrino" é o que tem 12 sílabas poéticas. O busílis (o xis do problema) está justamente na escolha de Ziraldo, que diz que querem que ele troque "arrasa" por "arrasam", o que mataria a rima com "casa".
Vou resumir o que eu disse a Ziraldo sobre o caso. Em textos jornalísticos, informativos, técnicos, jurídicos etc., o plural dá de goleada, por motivos compreensíveis. Quando se diz que Chico Buarque é um dos compositores que melhor traduzem a alma feminina, fica claro que não se diz que Chico é o que melhor traduz a alma feminina; o que se diz é que Chico integra o grupo dos que melhor traduzem a alma da mulher.
Quando se diz que a polícia brasileira é uma das que mais precisam de reciclagem, não se diz que ela é a que mais precisa de reciclagem; diz-se que algumas (diversas) polícias precisam mais do que outras e que a polícia brasileira é uma dessas.
Mais um exemplo: "A Bovespa foi das que mais caíram na última segunda-feira". O que se diz? Que a Bovespa foi a Bolsa que mais caiu? Não; o que se diz é que muitas Bolsas tiveram quedas expressivas e que a Bovespa foi uma dessas.
Em textos "frios", de fato o plural predomina, mas, em se tratando de textos literários e da linguagem espontânea, familiar, o predomínio do plural não é tão evidente... Nesses territórios da linguagem, a flexão do verbo no singular é recorrente, como se vê neste exemplo (citado por Evanildo Bechara em sua "Moderna Gramática Portuguesa"): "Um dos nossos escritores modernos que mais abusou do talento...".
Celso Cunha e Lindley Cintra citam estes dois exemplos: "O homem fora um dos que não resistira a tal sortilégio" (Fernando Namora); "...um dos primeiros homens doutos que escrevia em português sem mácula" (Camilo Castelo Branco).
O fato é que os exemplos vistos mostram que em certos casos o falante/escritor opta pela forma verbal que melhor traduz sua intenção, que, nos casos vistos, é a de enfatizar o verdadeiro agente do processo expresso. Quem diz algo como "Seu olhar é das coisas que mais me encanta" é levado pela força do encanto provocado por esse olhar a enfatizá-lo, o que se traduz pela opção por "encanta". Mutatis mutandis, pode-se dizer o mesmo da opção de Ziraldo em "uma risada daquelas que arrasa". A forma "arrasa" põe toda a carga de ênfase sobre a risada de Mercúrio. É isso.
inculta@uol.com.br
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